“A água estava morna e Joana entrou nela com um estremecimento. […] Era o prazer físico mais puro, o de não pensar, o de deixar que a água corresse sobre o corpo como se fosse uma pele nova, mais sensível e mais fria.
Ela se olhava. Onde estava Joana? Se ela fechasse os olhos, deixaria de existir? Não, o pensamento continuava, uma luzinha acesa no escuro. Mas que pensamento? Nenhum. Apenas o ser. Eu sou, eu sou, eu sou. A batida do coração, o sangue correndo, a respiração. Era como se ela estivesse nascendo naquele momento, sem passado, sem nome, apenas uma força viva debaixo da água.”
Este capítulo sintetiza os principais pilares da literatura clariceana:
Epifania no cotidiano: Um ato simples (tomar banho) transforma-se em uma experiência existencial profunda.
“Perto do Coração Selvagem” refere-se exatamente a esse estado de liberdade moral e animalidade que Joana busca. No banho, ela se despe das convenções sociais e do papel de “esposa” ou “mulher” para ser apenas matéria e consciência.
A Linguagem Sensorial: Clarice não descreve apenas a cena, ela faz o leitor sentir a temperatura da água e o isolamento do mundo exterior.
A Dualidade de Joana: neste ponto do livro, fica claro que Joana não é uma personagem “comum”. Ela é frequentemente descrita como tendo algo de “mal” ou “selvagem” dentro de si. No capítulo do banho, essa natureza não é vista como um defeito, mas como sua essência mais pura, livre das amarras da lógica humana.
“Viver não é cruel”, pensava Joana sob a água. “Viver é apenas ser.“

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