Arakem

José de Alencar

Postado Por Raí T. Rio

“Iracema passou entre as arvores, silenciosa como uma sombra: seu olhar cintilante coava entre as folhas, quase frouxos raios de estrelas: ela escutava o silencio profundo da noite e aspirava as auras subtis que aflavam.
Parou. Uma sombra resvalava entre as ramas; e nas folhas crepitava um passo ligeiro, si não era o roer de algum inseto. A pouco e pouco o tênue rumor foi crescendo e a sombra avultou.
Era um guerreiro. De um salto a virgem estava em face dele, tremula de susto e mais de cólera.
— Iracema! exclamou o guerreiro recuando.
— Anhanga turbou sem dúvida o sono de Irapuam, que o trouxe perdido ao bosque da jurema, onde nenhum guerreiro penetra sem a vontade de Araken.
— Não foi Anhanga, mas a lembrança de Iracema, que turbou o sono do primeiro guerreiro tabajára. Irapuam desceu de seu ninho de águia para seguir na várzea a garça do rio. Chegou, e Iracema fugiu de seus olhos. As vozes da taba contarão ao ouvido do chefe que um estrangeiro era vindo á cabana de Araken.
A virgem estremeceu. O guerreiro cravou nela o olhar abrasado:
— O coração aqui no peito de Irapuam, ficou
tigre. Pulou de raiva. Veio farejando a presa.
O estrangeiro está no bosque, e Iracema o acompanhava. Quero beber-lhe o sangue todo: quando o sangue do guerreiro branco correr nas veias do chefe tabajára, talvez o ame a filha de Araken.
A pupila negra da virgem cintilou na treva, e de seu lábio borbulhou como gotas do leite cáustico da euforia, um sorriso de desprezo:
— Nunca Iracema daria sou seio, que o espirito de Tupan habita só, ao guerreiro mais vil dos guerreiros tabajaras! Torpe é o morcego porque foge da luz e bebe o sangue da vitima adormecida!…
— Filha de Araken! Não assanha o jaguar!
O nome de Irapuam voa mais longe que o goaná do lago, quando sente a chuva além das serras. Que o guerreiro branco venha, e o seio de Iracema se abra para o vencedor…”

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Fragmento de “Iracema”

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