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O Recibo

José de Alencar

Postado Por Raí T. Rio

“Quando lhe anunciaram o Lemos, ela sobressaltou-se; e o tremor agitou as róseas asas da narina, revelou a comoção interior.
– Uma pequena dificuldade ocorreu naquele nosso negócio, é o que me traz.
– Qual foi?
– O Seixas…
– Já lhe pedi que não pronuncie este nome, disse a moça com um modo austero.
– É verdade! Desculpe-me, Aurélia, a precipitação… Ele exige vinte mil cruzeiros à vista, até amanhã, sem o que não aceita.
– Pague-os!
A moça proferiu esta palavra com aquele timbre sibilante que em certas ocasiões tomava sua voz, e que parecia o rangir do diamante no vidro.
Cobria-se-lhe o semblante de uma palidez mortal; e por momentos parecia que a vida tinha abandonado aquele formoso vulto, congelado em uma estátua de mármore.
Não percebeu Lemos esse profundo confrangimento, atrapalhado como estava a tirar do bolso uma das folhas de papel selado que estendeu sobre a mesa, alisando-a com as palmas das mãos. Depois molhando a pena, apresentou-a à moça:
– Uma ordenzinha!
Aurélia sentou-se à mesa e traçou com uma letra miúda de talhe oblíquo algumas linhas.
– Para que pede ele este dinheiro? Perguntou a menina enquanto escrevia.
– Não me quis dizer; mas eu suspeito; e tratando-se de uma união, de que depende o seu futuro, Aurélia, não devo ocultar coisa alguma.
– É um favor, que lhe agradeço.
– Não tenho certeza; mas desconfio que é uma rapaziada. O nosso José Clemente fez um palácio para guardar os doidos, mas vieram os meus francesinhos e inventaram o tal Alcazar que é uma casa de fazer doidos; de modo que eles já não cabem na Praia Vermelha.
Aurélia mordia a extremidade da caneta, cujo marfim escurecia entre os dois rocais de seus dentes de pérola.
– Não importa!
E assinou a ordem.
No dia seguinte à hora aprazada estava o Lemos em casa do Seixas.
O negociante tirou do bolso a seguinte folha de papel selado.
– Temos que passar primeiro um recibozinho.
– Em que termos?
Depois do uma pequena discussão em que os escrúpulos de Seixas relutaram contra a imposição da necessidade, assinou o moço contrariado esta declaração:
“Recebi do Ilmo. Sr. Antonio Joaquim Ramos a quantia de vinte mil cruzeiros como avanço do dote de cem mil cruzeiros pelo qual me obrigo a casar no prazo de três meses com a senhora que me for indicada pelo mesmo sr. Ramos; e para garantia empenho minha
pessoa e minha honra.”
Depois de verificar que o recibo estava em regra, Lemos contou com destreza de um cambista o maço de notas que trazia e o entregou ao moço recolhendo uma das cédulas:
– Dezenove mil novecentos e oitenta cruzeiros… com vinte de selo…
Seixas recebeu o dinheiro com tristeza.
– Maganão feliz!…
Soltando a sua implicante risadinha, Lemos fez duas piruetas, deu três saltinhos, beliscou a coxa de seu interlocutor e desceu a escada como uma bola de borracha aos ricochetes.”

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