FragmentosO ReciboJosé de Alencar Postado Por Raí T. Rio 4 de junho de 2026 Postado Por Raí T. Rio 207“Quando lhe anunciaram o Lemos, ela sobressaltou-se; e o tremor agitou as róseas asas da narina, revelou a comoção interior. – Uma pequena dificuldade ocorreu naquele nosso negócio, é o que me traz. – Qual foi? – O Seixas… – Já lhe pedi que não pronuncie este nome, disse a moça com um modo austero. – É verdade! Desculpe-me, Aurélia, a precipitação… Ele exige vinte mil cruzeiros à vista, até amanhã, sem o que não aceita. – Pague-os! A moça proferiu esta palavra com aquele timbre sibilante que em certas ocasiões tomava sua voz, e que parecia o rangir do diamante no vidro. Cobria-se-lhe o semblante de uma palidez mortal; e por momentos parecia que a vida tinha abandonado aquele formoso vulto, congelado em uma estátua de mármore. Não percebeu Lemos esse profundo confrangimento, atrapalhado como estava a tirar do bolso uma das folhas de papel selado que estendeu sobre a mesa, alisando-a com as palmas das mãos. Depois molhando a pena, apresentou-a à moça: – Uma ordenzinha! Aurélia sentou-se à mesa e traçou com uma letra miúda de talhe oblíquo algumas linhas. – Para que pede ele este dinheiro? Perguntou a menina enquanto escrevia. – Não me quis dizer; mas eu suspeito; e tratando-se de uma união, de que depende o seu futuro, Aurélia, não devo ocultar coisa alguma. – É um favor, que lhe agradeço. – Não tenho certeza; mas desconfio que é uma rapaziada. O nosso José Clemente fez um palácio para guardar os doidos, mas vieram os meus francesinhos e inventaram o tal Alcazar que é uma casa de fazer doidos; de modo que eles já não cabem na Praia Vermelha. Aurélia mordia a extremidade da caneta, cujo marfim escurecia entre os dois rocais de seus dentes de pérola. – Não importa! E assinou a ordem. No dia seguinte à hora aprazada estava o Lemos em casa do Seixas. O negociante tirou do bolso a seguinte folha de papel selado. – Temos que passar primeiro um recibozinho. – Em que termos? Depois do uma pequena discussão em que os escrúpulos de Seixas relutaram contra a imposição da necessidade, assinou o moço contrariado esta declaração: “Recebi do Ilmo. Sr. Antonio Joaquim Ramos a quantia de vinte mil cruzeiros como avanço do dote de cem mil cruzeiros pelo qual me obrigo a casar no prazo de três meses com a senhora que me for indicada pelo mesmo sr. Ramos; e para garantia empenho minha pessoa e minha honra.” Depois de verificar que o recibo estava em regra, Lemos contou com destreza de um cambista o maço de notas que trazia e o entregou ao moço recolhendo uma das cédulas: – Dezenove mil novecentos e oitenta cruzeiros… com vinte de selo… Seixas recebeu o dinheiro com tristeza. – Maganão feliz!… Soltando a sua implicante risadinha, Lemos fez duas piruetas, deu três saltinhos, beliscou a coxa de seu interlocutor e desceu a escada como uma bola de borracha aos ricochetes.” Você pode se interessar por este post DedicatóriaFragmento de “Senhora”Tem alguma opinião?Compartilhe sua reação ou deixe um comentário rápido — adoraríamos saber sua opinião! 1 1 0 0 0 0 José de Alencar Compartilhar 1 FacebookTwitterWhatsappEmailAdicionar Novo comentárioDeixe um comentário Cancelar resposta Sua avaliação: Quero me inscrever na newsletter! Post Anterior Fernando Próximo Post O Casamento Você também pode gostar destes posts A Herança A Casa da Tia Capitu