FragmentosPotyJosé de Alencar Postado Por Raí T. Rio 4 de junho de 2026 Postado Por Raí T. Rio 207“O cajueiro floresceu quatro vezes depois que Martim partiu das praias do Ceará, levando no frágil barco o filho e o cão fiel. A jandaia não quis deixar a terra onde repousava sua amiga e senhora. O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da pátria. Havia ali a predestinação de uma raça? Poty com seus guerreiros esperava na margem do rio. O cristão lhe prometera voltar; todas as manhãs subia ao morro das areias e volvia os olhos ao mar a ver si branqueava ao longe a vela amiga. Afinal volta Martim de novo às terras, que foram de sua felicidade, e são agora de amarga saudade. Quando seu pé sentiu o calor das brancas areias, derramou-se por todo seu ser um fogo ardente, que lhe requeimou o coração: era o fogo das recordações acesas. A chama só aplacou quando ele tocou a terra, onde dormia sua esposa; porque nesse instante seu coração transudou, como o tronco do jetahy nos ardentes calores, e refrescou sua pena de lagrimas abundantes. Muitos guerreiros de sua raça acompanharão o chefe branco, para fundar com ele a mayri dos cristãos. Veio também um sacerdote de sua religião, de negras vestes, para plantar a cruz na terra selvagem. Poty foi o primeiro que ajoelhou aos pés do sagrado lenho: não sofria ele que nada mais o separasse de seu irmão branco; por isso quis tivessem ambos um só deus, como tinham um só coração. Ele recebeu com o batismo o nome do santo, cujo era o dia; e o do rei, a quem ia servir, e sobre os dois o seu, na língua dos novos irmãos. Sua fama cresceu e ainda boje é o orgulho da terra, onde ele viu a luz primeiro. A mayri que Martim erguera à margem do rio, nas praias do Ceará, medrou. A palavra do Deus verdadeiro germinou na terra selvagem; e o bronze sagrado ressoou nos vales onde rugia o maracá. Jacaúna veio habitar nos campos da Porangaba para estar perto de seu amigo branco; Camarão assentou a taba de seus guerreiros nas margens da Mocejana. Tempo depois, quando veio Albuquerque, o grande chefe dos guerreiros brancos, Martim e Camarão partirão para as margens do Mearim á castigar o feroz tupinambá e expulsar o branco tapuia. Era sempre com emoção que o esposo de Iracema revia as plagas onde fora tão feliz, e as verdes folhas á cuja sombra dormia a formosa tabajara. Muitas vezes ia sentar-se naquelas doces areias, para cismar e acalentar no peito a agra saudade. As jandaias cantavam ainda no olho do coqueiro; mas não repetia já o mavioso nome de Iracema. Tudo passa sobre a terra.” Você pode se interessar por este post A LoucuraFragmento de “Iracema”Tem alguma opinião?Compartilhe sua reação ou deixe um comentário rápido — adoraríamos saber sua opinião! 1 1 0 0 0 0 José de Alencar Compartilhar 1 FacebookTwitterWhatsappEmailAdicionar Novo comentárioDeixe um comentário Cancelar resposta Sua avaliação: Quero me inscrever na newsletter! Post Anterior Arakem Próximo Post Aurélia Você também pode gostar destes posts Volta Ao Rio Irapuã Capitu