Martim

José de Alencar

Postado Por Raí T. Rio

“Martim vai à passo e passo por entre os altos joareiros que cercam a cabana do Pagé.
Era o tempo em que o doce aracaty chega do mar, e derrama a deliciosa frescura pelo árido sertão. A planta respira; um doce arrepio irriça a verde coma da floresta.
O cristão contempla o ocaso do sol. Assombra, que desce dos montes e cobre o vale, penetra sua alma. Lembra-se do lugar onde nasceu, dos entes queridos que ali deixou. Sabe ele se tornará á vê-los algum dia?
Em torno carpe a natureza o dia que expira.
Soluça a onda trepida e lacrimosa; geme a brisa na folhagem; o mesmo silencio anela de aflito.
Iracema parou em face do jovem guerreiro:
— É a presença de Iracema que perturba a serenidade no rosto do estrangeiro?
Martim pousou brandos olhos na face da virgem:
— Não, filha de Araken: tua presença alegra,
como a luz da manha. Foi a lembrança da pátria que trouxe a saudade ao coração pressago.
— Uma noiva te espera?
O forasteiro desviou os olhos. Iracema dobrou a cabeça sobre a espadua, como a tenra palma da carnaúba, quando a chuva peneira na várzea.
— Ela não é mais doce do que Iracema, a virgem dos lábios de mel; nem mais formosa! murmurou o estrangeiro.
— A flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue, e tronco onde se enlace. Iracema não vive na alma de um guerreiro: nunca sentiu a frescura de seu sorriso.
Emudeceram ambos, com os olhos no chão, escutando a palpitação dos seios que batiam opresos.
A virgem falou enfim:
— A alegria voltará logo á alma do guerreiro branco; porque Iracema quer que ele veja antes da noite a noiva que o espera…”

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Fragmento de “Iracema”

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