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O Resgate

José de Alencar

Postado Por Raí T. Rio

“Eram dez horas da noite.
Aurélia, que se havia retirado mais cedo da saleta, trocando com o marido um olhar de inteligência, estava nesse momento em seu toucador, sentada em frente à elegante escrivaninha de araribá cor-de-rosa, com relevos de bronze dourado a fogo.
A moça trazia nessa ocasião um roupão de cetim verde cerrado à cintura por um cordão de fios de ouro. Era o mesmo da noite do casamento, e que desde então ela nunca mais usara. Por uma espécie de superstição lembrara-se de vesti-lo de novo, nessa hora na qual, a crer em seus pressentimentos, iam decidir-se afinal o seu destino e a sua vida.
A moça reclinara a fronte sobre a mão direita, cujo braço nu, apoiado na mesa, surgia entre os rofos de cambraia que frocavam a manga do roupão. Estava absorta em uma profunda cisma, da qual a arrancou o tímpano da pêndula soando as horas.
Ergueu-se então, e tirou da gaveta uma chave; atravessou a câmara nupcial, que estava às escuras, apenas esclarecida pelo reflexo do toucador, e abriu afoitamente aquela porta que havia fechado onze meses antes, num ímpeto de indignação e horror.
Empurrando a porta com estrépito de modo a ser ouvida no outro aposento, e prendendo o reposteiro para deixar franca a passagem, voltou rapidamente, depois de proferir estas palavras:
– Quando quiser!
Fernando ao penetrar nessa câmara nupcial, cheia de sombras e silêncio, esqueceu um momento a pungente recordação que ela devia avivar, e que parecia ter-se apagado com a escuridão. O que ele sentiu foi a fragrância que ali recendia, e que o envolveu como a atmosfera de um céu, do qual ele era o anjo decaído.
Aurélia esperava o marido, outra vez sentada à escrivaninha. Ela tinha afastado o braço da arandela de modo que a luz do gás, interceptada por um refletor de jaspe representando o carro da aurora, deixava-a imersa em uma penumbra diáfana, que dava à sua beleza tons de maviosa suavidade.
Seixas sentou-se na cadeira que Aurélia lhe indicara em frente dela, e depois de recolher-se um instante, buscando o modo por que devia começar, entregou-se à inspiração de momento.
– É a segunda vez que a vejo com este roupão. A primeira foi há cerca de onze meses, não justamente neste lugar, mas perto daqui naquele aposento.
– Deseja que conversemos no mesmo lugar? perguntou a moça singelamente.
– Não, senhora. Este lugar é mais próprio para o assunto que vamos tratar. Lembrei aquela circunstância unicamente pela coincidência de representá-la a meus olhos, tal como a vi naquela noite, de modo que me parece continuar uma entrevista suspensa. Recorda-se?
– De tudo.
– Eu supunha haver ter feito uma coisa muito vulgar que o mundo tem admitido com o nome de casamento de conveniência. A senhora desenganou-me: definiu minha posição com a maior clareza; mostrou que realizara uma transação mercantil; e exibiu o seu título de compra, que naturalmente ainda conserva.
– É a minha maior riqueza, disse a moça com um tom, que não se podia distinguir se era de ironia ou de emoção.
Seixas agradeceu com uma inclinação de cabeça e prosseguiu:
– Se eu tivesse naquele momento os vinte mil cruzeiros, que havia recebido de seu tutor, por adiantamento de dote, a questão resolvia-se de si mesma. Desfazia-se o equívoco; restituía-lhe seu dinheiro; recuperava minha palavra; e separávamo-nos como fazem dois contratantes de boa fé, que reconhecendo seu engano, desobrigando-se mutuamente.
Seixas parou, como se aguardasse uma contradição, que não apareceu. Aurélia recostada na cadeira de braço com as pálpebras a meio cerradas, ouvia, brincando, com um punhal de madre-pérola que servia para cortar o papel.
Mas os vinte mil cruzeiros, eu já os não possuía naquela ocasião, nem tinha onde havê-los. Em tais circunstâncias restavam duas alternativas; trair a obrigação estipulada, tornar-me um caloteiro; ou respeitar a fé do contrato e cumprir minha palavra. Apesar de conceito que lhe mereço, faça-me a justiça de acreditar que a primeira dessas alternativas, eu não a formulei senão para a repelir. O homem que se vende, pode depreciar-se; mas dispõe do que lhe pertence. Aquele que depois de vendido subtrai-se ao dono, rouba o alheio. Dessa infâmia isentei-me eu, aceitando o fato consumado que já não podia conjurar, e submetendo-me lealmente, com o maior escrúpulo, à vontade que eu reconhecera como lei, e à qual me alienara. Invoco sua consciência por mais severa que se mostre a meu respeito, estou certo que não me negará uma virtude: a fidelidade à minha palavra.
– Não, senhor; cumpriu-a como um cavalheiro.
– É o que desejei ouvir de sua boca antes de informá-la do motivo desta conferência.
A quantia que me faltava há onze meses, na noite de seu casamento, eu a possuo finalmente. Tenho-a comigo; trago-a aqui nesta carteira, e com ela venho negociar o meu resgate.
Estas palavras romperam dos lábios de Seixas com uma impetuosidade, que ele dificilmente pode conter. Como se elas lhe desoprimissem o peito de um peso grande, respirou vivamente, apertando com movimento sôfrego a carteira que tirara do bolso.
Se não tivesse tão preocupado com a sua própria comoção, notaria de certo a percussão íntima que sofrera Aurélia, cujo talhe reclinado sobre o descanso da cadeira brandiu como a lâmina de uma mola de aço.
No sobressalto que a agitou, levara à boca a folha de madre-pérola; os lindos dentes rangeram.
Ao abrir a carteira, Seixas suspendeu o gesto.
– Antes de concluir a negociação, devo revelar-lhe a origem deste dinheiro, para desvanecer qualquer suspeita de o ter eu obtido por seu crédito e como seu marido. Não, senhora, adquiri-o por mim exclusivamente; e para maior tranquilidade de minha consciência provém de data anterior ao nosso casamento. Cerca de seis mil cruzeiros
representam o produto de meus ordenados e das joias e trastes, que apurei logo depois do cativeiro, pensando já na minha redenção. Ainda tinha muito que esperar e talvez me faltaria resignação para ir ao cabo, se Deus não abreviasse este martírio, fazendo um milagre em meu favor. Era sócio de um privilégio concedido há quatro anos, e do qual já nem me lembrava. Anteontem, à mesma hora que a senhora me submetia à mais dura de todas as provas, o céu me enviava um socorro imprevisto para quebrar enfim este jugo vergonhoso. Recebi a notícia da venda do privilégio, que me trouxe um lucro de mais de quinze mil cruzeiros. Aqui estão as provas.
Aurélia recebeu da mão de Seixas vários papéis e correu os olhos por eles.
Constavam de uma declaração do Barbosa relativa ao privilégio, e contas de vendas de joias e outros objetos.
– Agora nossa conta, continuou Seixas desdobrando uma folha de papel. A senhora pagou-me cem mil cruzeiros; oitenta mil em um cheque do Banco do Brasil que lhe restituo intacto; e vinte mil em dinheiro, recebido há 330 dias. Ao juro de 6% essa quantia lhe rendeu Cr$ 1.084,71. Tenho pois de entregar-lhe Cr$ 21.084,71, além do cheque. Não é isto?
Aurélia examinou a conta corrente; tomou uma pena e fez com facilidade o cálculo dos juros.
– Está exato.
Então Seixas abriu a carteira e tirou com o cheque vinte e um maços de notas, de mil cruzeiros cada um, além dos quebrados que depositou em cima da mesa:
– Tenha a bondade de contar.
A moça com a fleuma de um negociante, abriu os maços um após o outro e contou as cédulas pausadamente. Quando acabou essa operação, voltou-se para Seixas e perguntou-lhe como se falasse ao procurador incumbido de receber o dividendo de suas apólices.
– Está certo. Quer que lhe passe um recibo?
– Não há necessidade. Basta que me restitua o papel da venda.
– É verdade. Não me lembrava.
Aurélia hesitou um instante. Parecia recordar-se do lugar onde havia guardado o papel; mas o verdadeiro motivo era outro. Consultava-se, receosa de revelar sua comoção, caso se levantasse.
– Faça-me o favor de abrir aquela gaveta, a Segunda. Dentro há de estar um maço de papéis atado com uma fita azul… justamente!… Não conhece esta fita? Foi a primeira coisa que recebi de sua mão, com um ramo de violetas. Ah! Perdão; estamos negociando. Aqui tem seu título.
A moça tirara do maço um papel e o deu a Seixas, que fechou-o na carteira.
– Enfim partiu-se o vínculo que nos prendia. Reassumi a minha liberdade, e a posse de mim mesmo. Não sou mais seu marido. A senhora compreende a solenidade deste momento?
– É o da nossa separação, confirmou Aurélia.
– Talvez ainda nos encontremos neste mundo, mas como dois desconhecidos.
– Creio que nunca mais, disse Aurélia com o tom de uma profunda convicção.
– Em todo o caso, como esta é a última vez que lhe dirijo a palavra, quero dar-lhe agora uma explicação, que não me era lícita há onze meses na noite do nosso casamento.
Então eu faria a figura de um coitado que arma à compaixão de uma senhora que pisava aos pés a minha probidade, não acreditaria uma palavra do que então lhe dissesse.
– A explicação é supérflua.
– Ouça-me; desejo que em um dia remoto, quando refletir sobre este acontecimento, me restitua uma parte da sua estima; nada mais. A sociedade no seio da qual me eduquei, fez de mim um homem à sua feição; o luxo dourava-me os vícios, e eu não via através da fascinação o materialismo a que eles me arrastavam. Habituei-me a considerar a riqueza como a primeira força viva da existência, e os exemplos ensinavam-me que o casamento era meio tão legítimo de adquiri-la, como a herança e qualquer honesta especulação.
Entretanto assim, a senhora me teria achado inacessível à tentação, se logo depois que seu tutor procurou-me, não surgisse uma situação que aterrou-me. Não somente vi-me ameaçado da pobreza, e o que mais me afligia, da pobreza endividado, como achei-me o causador, embora involuntário, da infelicidade de minha irmã cujas economias eu havia consumido, e que ia perder um casamento por falta de enxoval. Ao mesmo tempo minha mãe, privada dos módicos recursos que meu pai lhe deixara, e de que eu tinha disposto imprevidentemente pensando que os poderia refazer mais tarde!… Tudo isto abateu-me.
Não me defendo; eu devia resistir e lutar; nada justifica a abdicação da dignidade. Hoje saberia afrontar a adversidade, e ser homem; naquele tempo não era mais do que um ator de sala; sucumbi. Mas a senhora regenerou-me e o instrumento foi esse dinheiro. Eu lhe agradeço.
Aurélia ouviu imóvel. Seixas concluiu:
– Eis o que pretendia dizer-lhe antes de separarmo-nos para sempre.
– Também eu desejo que não leve de mim uma suspeita injusta. Como sua mulher, não me defenderia; desde porém que já não somos nada um para o outro, tenho o direito de reclamar o respeito devido a uma senhora.
Aurélia referiu sucintamente o que Eduardo Abreu fizera quando falecera D. Emília, e a resolução que ela tomara de salvá-lo do suicídio.
– Eis a razão, por que chamei esse moço a minha casa. Seu segredo não me pertencia; e entre mim e o senhor não existia a comunidade que faz de duas almas uma.
Aurélia reuniu o cheque e os maços de dinheiro que estavam sobre a mesa.
– Este dinheiro é abençoado. Diz o senhor que ele o regenerou, e acaba de o restituir muito a propósito para realizar um pensamento de caridade e servir a outra regeneração.
A moça abriu uma gaveta da escrivaninha e guardou nela os valores; depois do que bateu o tímpano; a mucama apareceu.
– Permita-me, disse Aurélia e voltou-se para dar em voz baixa uma ordem à escrava.
Esta acendeu o gás nas arandelas da câmara nupcial e retirou-se, enquanto Aurélia dizia ao marido, mostrando o aposento iluminado:
– Não quero que erre o caminho.
– Agora não há perigo.
– Agora? repetiu a moça com um olhar que perturbou Seixas.
Houve uma pausa.
– Talvez a senhora para evitar a curiosidade pública, deseje um pretexto?
– Para que?
– A viagem à Europa seria o melhor. O paquete deve partir nestes quinze dias. Uma prescrição médica tudo explicará, a separação e a urgência. Mais tarde quando venham a saber, já não causará surpresa.
Aurélia deixou perceber ligeira comoção. Entretanto foi com a voz firme que respondeu:
– Desde que uma coisa se tem de fazer, o melhor é que se faça logo e sem evasivas.
Fernando ergue-se de pronto:
– Neste caso receba minhas despedidas.
– Aurélia de seu lado erguera-se também para cortejar o marido.
– Adeus, senhora. Acredite…
– Sem cumprimentos! atalhou a moça. Que poderíamos dizer um ao outro que já não fosse pensado por ambos?
– Tem razão.
Seixas recuou um passo até o meio do aposento, e fez uma profunda cortesia, à qual Aurélia respondeu. Depois atravessou lentamente a câmara nupcial agora iluminada.
Quando erguia o reposteiro ouviu a voz da mulher.
– Um instante! disse Aurélia.
– Chamou-me?
– O passado está extinto. Este onze meses, não fomos nós que os vivemos, mas aqueles que se acabam de separar, e para sempre. Não sou mais sua mulher; o senhor já não é mais meu marido. Somos dois estranhos. Não é verdade?
Seixas confirmou com a cabeça.
– Pois bem, agora ajoelho-me eu a teus pés, Fernando, e suplico-te que aceites meu amor que nunca deixou de ser teu, ainda quando mais cruelmente ofendia-te.
A moça travara das mão de Seixas e o levara arrebatadamente ao mesmo lugar onde cerca de um ano antes ela infligira ao mancebo ajoelhado a seus pés, a cruel afronta.
– Aquela que te humilhou, aqui a tens abatida, no mesmo lugar onde ultrajou-te, nas iras de sua paixão. Aqui a tens implorando teu perdão e feliz porque te adora, como o senhor de sua alma.
Seixas ergueu nos braços a formosa mulher, que ajoelhara a seus pés; os lábios de ambos se uniam já em férvido beijo, quando um pensamento funesto perpassou no espírito do marido. Ele afastou de si com um gesto grave a linda cabeça de Aurélia, iluminada por uma aurora de amor, e fitou nela o olhar repassado de profunda tristeza.
– Não, Aurélia! Tua riqueza separou-nos para sempre.
A moça desprendeu-se dos braços do marido, correu ao toucador, e trouxe um papel lacrado que entregou a Seixas.
– O que é isto, Aurélia?
– Meu testamento.
Ela despedaçou o lavre e deu a ler a Seixas o papel. Era efetivamente um testamento em que ela confessava o imenso amor que tinha ao marido e o instituía seu universal herdeiro.
– Eu o escrevi logo depois do nosso casamento; pensei que morresse naquela noite, disse Aurélia com gesto sublime.
Seixas contemplava-a com os olhos rasos de lágrimas.
– Esta riqueza causa-te horror? Pois faz-me viver, meu Fernando. É o meio de a repelires. Se não for bastante, eu a dissiparei…”

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