FragmentosO BaileJosé de Alencar Postado Por Raí T. Rio 4 de junho de 2026 Postado Por Raí T. Rio 213“Havia baile em São Clemente. Aurélia ali estava como sempre, deslumbrante de formosura, de espírito e de luxo. Seu traje era um primor de elegância; suas jóias valiam um tesouro, mas ninguém apercebia-se disso. O que se via e admirava era ela, sua beleza, que enchia a sala, como um esplendor. O baile em vez de fatigá-la, ao contrário a expandia. Semelhante às flores tropicais, filhas do sol, que ostentam o brilhante matiz nas horas mais ardentes do dia, era justamente nesse pélago de luz e paixões, que Aurélia revelava toda a opulência de seu beleza. Seixas a contemplava de parte. As outras moças, de meia noite em diante, começavam a murchar-se; o cansaço desbotava-lhes a cor, ou afogueava-lhes o rosto. O talhe denunciava o excesso da fadiga na languidez das inflexões ou na rispidez do gesto. Aurélia ao contrário, à medida que adiantava-se a noite, desferia de si mais seduções, e parecia entrar na plenitude de sua graça. A correção artística de seu traje ia desaparecendo no bulício do baile. Como o primeiro esboço que surge afinal do cinzel impetuoso do artista, ao fogo da inspiração, sua estátua recebia da admiração da turba os últimos toques. Quando em torno se revolvia o turbilhão, ela conservava sua inalterável serenidade. O colo arfava-lhe mansamente, ao influxo das brandas emoções; o sorriso coalhava-se em enlevos nos lábios entreabertos, por onde escapava-se a respiração calma. Desprendia-se de seus olhos, de toda sua pessoa, uma efusão celeste que era como a sua irradiação. Quando completou-se esta assunção de sua beleza, o baile estava a terminar. Aurélia fez um gesto ao marido, e envolvendo-se na manta de caxemira que ele apresentara-lhe, trançou o braço no seu. No meio das adorações que a perseguiam, retirouse orgulhosamente reclinada ao peito desse homem tão invejado, que ela arrastava após si como um troféu. O carro estava à porta. Ela sentou-se rebatendo os amplos folhos da saia para dar lugar ao marido. – Que linda noite! exclamou recostando a cabeça nas almofadas para engolfar os olhos no azul do céu marchetado de estrelas. Com esse movimento sua espádua tocou no ombro de Seixas e os cachos de cabelos castanhos, agitados pelo movimento do carro, afagaram a face do mancebo desprendendo perfumes de inebriar. De momento a momento, a claridade do gás entrava pela portinhola do carro, em frente ao lampião, e debuxava o mavioso semblante de Aurélia e seu colo, que a manta escorregando, tinha descoberto. (…) Aurélia procurou a mão do marido e encostou-a na testa. Debruçando-se para ela com esse movimento, Seixas roçara com o braço o contorno de um seio palpitante. A moça estremeceu como se a percutisse uma vibração íntima, e apertou com uma crispação nervosa a mão do marido que ela conservara na sua. – Aurélia, balbuciou Fernando que a pouco e pouco resvalara do divã, e estava de joelhos, buscando os olhos da mulher. Ela ergueu de leve a cabeça, para vazar no semblante do marido a luz dos olhos, e sorriu. Que sorriso! Uma voragem, onde submergiam-se a razão, a dignidade, a virtude, todas essas arrogâncias do homem. Seixas ia precipitar-se; mas os olhos de Aurélia o queimavam; escapava daquelas pupilas cintilantes um fogo intenso que penetrava-lhe n’alma como lava em ebulição. Ele voltou o rosto para o lado da porta, como receoso de que estivesse aberta. Aurélia cerrara as pálpebras e atirara de novo a cabeça sobre a almofada, com esse delicioso abandono, em que o corpo remite-se depois de um excessivo exercício. Fernando na mesma posição contemplava a formosa mulher, que ele tinha ali, palpitante sob o seu olhar e ao contato do peito onde fervilhavam os frocos de renda do talhe do vestido, aflando ao vivo ofego da respiração. E todavia não ousava. Nunca, nos tempos em que ele fazia o contrabando do amor, mulher alguma, por mais defesa que fosse a seu desejo, inspirou-lhe respeito, ou antes o susto, que o tolhia naquele momento junto de sua esposa. A moça levantou o braço com um gesto de enfado e deixou-o sobre o recosto do divã, donde foi deslizando fracamente para o ombro de Seixas. À doce pressão dessa cadeia que o cingia, ele vergou a cabeça e chegou a embeber a flor dos lábios nas tranças de cabelos que borbulhavam em anéis pelas espáduas e refluíam pela face de Aurélia. Mas a moça voltara a cabeça escondendo o rosto no acolchoado de veludo, com um gesto rápido, ao passo que retraíra a mão para velar a face. Bastou este movimento, que não passava talvez de frágil resistência da castidade, para reprimir o impulso de Seixas. Depois de um instante de perplexidade ia levantar-se, quando Aurélia surgiu arrebatadamente do torpor e languidez que a prostravam, e sentando-se no divã, obrigou o marido a ajoelhar-se de novo a seus pés. Apoiando-lhe então a mão na fronte, vergou-lhe a cabeça, e cravou-lhe no semblante um olha longo, penetrante, que parecia submergir-lhe na consciência daquele homem, e sondar-lhe os arcanos. – Não me engana? Ama-me enfim? perguntou ela com meiguice. – Ainda não acredita? – Venceu então o impossível? – Fui vencido por ele. – Essa felicidade não a tenho eu!… exclamou a moça erguendo-se do divã, e caminhando pela sala com o passo frouxo e a cabeça baixa. Fernando que a seguia com o olhar surpreso, viu-a aproximar-se de um quadro colocado sobre um estrado e contra a parede fronteira. A cortina azul do dossel correu; à luz do gás que batia em cheio desse lado, destacou-se do fundo do painel o retrato em vulto inteiro de um elegante cavalheiro. Era o seu retrato; mas do mancebo que fora dois anos antes, com o toque de suprema elegância que ele ainda conservava, e com o sorriso inefável que se apagara sob a expressão grave e melancólica do marido de Aurélia. – O homem que eu amei, a que amo, é este, disse Aurélia apontando para o retrato. O senhor tem suas feições; a mesma elegância, a mesma nobreza de porte. Mas o que não tem é sua alma, que eu guardo aqui em meu seio e que sinto palpitar dentro em mim, e possuirme, quando ele me olha. Aurélia fitou o retrato com delícia. Arrebatada pela veemência do afeto que entumecia-lhe o seio, pousou nos lábios frios e mortos da imagem um beijo férvido, pujante, impetuoso; um desses beijos exuberantes que são verdadeiras explosões da alma irrupta pelo fogo de uma paixão subterrânea, longamente recalcada. Seixas estava atônito. Sentindo-se ludíbrio dessa mulher, que o subjugava a seu pesar, escutava-lhe as palavras, observava-lhe os movimentos e não a compreendia. Chama a si a razão, e esta fugia-lhe, deixando-o extático. Aurélia acabava de voltar-se para ele, soberba de volúpia, fremente de amor, com os olhos em chamas, os lábios túrgidos, e o seio pulando aos ímpetos da paixão: – Por que meu coração que vibra assim diante desta imagem, fica frio junto a ti? Por que seu olhar não penetra nele, como o raio desta pupila imóvel? Por que o toque de sua mão não comunica à minha esta chama que me embriaga como um néctar? Aurélia parou de repente. Uma onde de rubor banhou-lhe o rosto mimoso. Atalhada no ímpeto da paixão por um assomo de pudor, ela confrangeu-se como a flor da noite ao raiar da luz. Suspendeu a capa de caxemira que lhe tinha resvalado dos ombros para a cintura, e envolvendo-lhe com o estremecimento de um calafrio, encolheu-se no canto do divã. Seixas aproximou-se, fazendo-lhe a cortesia do costume; com a voz já tranqüila, e o modo natural disse: – Boa noite. A moça entreabriu a caxemira quanto bastava para tirar os dedos afilados da mão direita, que estendeu ao marido. – Já? perguntou ela erguendo os olhos entre súplices e despóticos. O marido estremeceu ao toque sutil dos dedos, que calcavam-lhe docemente a palma da mão: – Ordena que fique? disse com a voz trêmula. – Não. Para que? O que exprimia essa frase, repassada do sorriso que lhe servia por assim dizer de matiz, ninguém o imaginava. Seixas retirou-se levando n’alma a mais cruel humilhação que podia infligir-lhe o desprezo dessa mulher.” Você pode se interessar por este post O EstrangeiroFragmento de “Senhora”Tem alguma opinião?Compartilhe sua reação ou deixe um comentário rápido — adoraríamos saber sua opinião! 1 1 0 0 0 0 José de Alencar Compartilhar 1 FacebookTwitterWhatsappEmailAdicionar Novo comentárioDeixe um comentário Cancelar resposta Sua avaliação: Quero me inscrever na newsletter! Post Anterior O Casamento Próximo Post O Resgate Você também pode gostar destes posts Poty Dedicatória Óbito do Autor